Preparando o Cenário
Ana Maria Giulietti, Raymond Mervin Harley,
Luciano Paganucci de Queiroz &
Alessandro Rapini
A região do semi-árido brasileiro está praticamente incluída no Nordeste do país. É uma das cinco Regiões geopolíticas na qual o país está dividido, e compreende nove Estados. Apenas oito deles, ao menos em parte, estão incluídos na região semi-árida: Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia, além do Norte de Minas Gerais (Região Sudeste). Apenas o Maranhão, no limite com a Região Norte, que inclui a Bacia Amazônica, não está incluído no semi-árido. Essa extensão de terras áridas se extende entre os paralelos 3-17°S e 35-45°W e ocupa uma área de aproximadamente 900.000 km², cobrindo quase 8% do território nacional, uma área maior que o Texas ou que toda a Península Ibérica, incluindo Espanha e Portugal.
O clima do Nordeste é um dos mais complexos do país, devido a grande área, com diferentes fisionomias de relevo, e especialmente a associação de dois sistemas climáticos formados pelos alísios do Nordeste e Sudeste, o que propicia chuvas em diversos períodos do ano e em diferentes quantidades.
O clima varia na região, desde o súper-úmido, com chuvas de até 2000 mm/ano, até o semi-árido, com chuvas entre 300-500 mm/ano, no qual as chuvas ficam restritas a uns poucos mêses durante o ano. Desse modo, a disponibilidade de água é o fator mais determinante para a vegetação e a fauna, e até certo ponto para a exploração humana dos recursos natuais.
Apesar da área ser cortada por um razoável sistema de rios, formado pelas regiões hidrográficas do São Francisco, Parnaíba, Atlântico Nordeste Oriental e Atlântico Leste, grande parte desses rios são temporários, correndo apenas na época chuvosa. O rio São Francisco, o maior na região, nasce na Serra da Canastra, em Minas Gerais, e se dirige para Norte, com cerca de 2.700 km de extensão, atravessando grande parte do Estado de origem até a Bahia (com 48,2% da bacia), chegando a fronteira com Pernambuco (com 10% da bacia), onde se desvia para o Oceano Altântico entre Alagoas (2,3% da bacia) e Sergipe (1,1% da bacia). A região hidrográfica do Parnaíba é dominada pelo rio de mesmo nome, sendo a segunda em importância no Nordeste, com 1.400 km de extensão, estando quase completamente incluída no Piauí (90%), mas também no Ceará (10%). Estão ligados a essa região hidrográfica os aquíferos (águas subterrâneas) que apresentam o maior potencial hídrico do Nordeste. A região hidrográfica do Nordeste Oriental abrange pequenas bacias costeiras, com pequena extensão e vazão dos seus corpos d’água. Inclui grande parte do litoral setentrional do Nordeste, inclusive cinco importantes capitais, mas inclui também grande parte do Semi-árido. Os Estados mais cobertos por essa região hidrográfica são: Ceará (46%), principalmente com o rio Jaguaribe, Paraíba (20%) e Pernambuco (10%). A região hidrográfica do Atlântico Leste compreeende especialmente os rios que nascem na Cadeia do Espinhaço de Minas Gerais e da Bahia e correm para o Oceano Atlântico. O rio Jequitinhonha corre especialmente em Minas Gerais, sendo mais ou menos o limite sul da região semi-árida, e praticamente responsável pelos 26,2% de cobertura da bacia no Estado. O Estado da Bahia tem a maior cobertura, com 66,8% da bacia, especialmente devido aos rios Jacuípe, Paraguaçu, Contas e Pardo, que nascem em diversas regiões da Chapada Diamantina.
Esse conjunto de contrastes nos fatores físicos e climáticos condicionam o aparecimento de diferentes tipos vegetacionais, muitas vezes na forma de um mosaico. Para melhor entendimento do leitor, pode ser feito, por exemplo, uma caminhada do litoral do Nordeste para o interior, em direção ao rio São Francisco e arredores. Verifica-se de modo geral, um progressivo aumento da altitude, que se estabiliza mais ou menos nos 500 m e, paralelamente, uma redução da quantidade anual de chuvas, de 2000-1000 mm/ano para se manter entre 500-700 mm/ano, associado a uma irregular distribuição durante o ano, ocorrendo geralmente de sete a nove meses de seca.
Essa paisagem geral pode ser modificada dependendo principalmente do aumento da altitude, que orograficamente aumenta também a quantidade de chuva local. Tal situação ocorre no Planalto da Borborema e outras serras do Semi-árido meridional e, especialmente, na Chapada Diamantina, onde as altitudes variam de 1.000 a 2.000 m e as chuvas chegam a 1.500 mm/ano.
Essa passagem do litoral para o interior, com variação de relevo e chuvas, está associada à mudança da paisagem, que, no litoral e até cerca de 100 a 200 km para o interior, é dominada pela Floresta Atlântica, exuberante e perenifólia (sempre-verde). Continuando para o interior, as florestas vão se tornando semi-perenifólias (algumas espécies perdem as folhas durante o período seco) a totalmente caducifólias (todas as espécies perdem as folhas durante o período seco). Os dois últimos tipos de florestas delimitam fitofisionomicamente a região do Semi-árido do Brasil e constituem o Bioma das Caatingas. O tipo de vegetação predominante no bioma é constituido por diferentes padrões de caatingas (do tupi, caa = mata, tinga = branca). Essas variam desde a estrutura de uma floresta, contituída de árvores, muitas vezes espinhosas, de 6 a 10 m de altura, semi- a caducifólias, com subosque de arbustos caducifólios e ervas anuais, onde predominam especialmente as leguminosas, até caatingas semi-arbustivas com predominância de cactáceas, euforbiáceas e bromélias. As primeiras chuvas são acompanhadas pela transformação de árvores e arbustos secos com troncos e ramos desnudos e esbranquiçados, em uma vegetação verde e luxuriante, com uma imensidão de cores pela floração quase simultânea das espécies, associado ao aparecimento de uma fauna espetacular. Apenas considerando as plantas com flores (angiospermas), são mais de 5.000 espécies, das quais mais de 300 são exclusivas desse tipo de vegetação . Ao subirmos as serras começamos a observar um gradiente de diferentes condições de umidade que, associado ao tipo de solo, propicia a formação de enclaves de outros tipos vegetacionais. Nas altitudes entre 800 e 1000 m, podem ser observadas, principalmente no Semi-árido setentrional, Florestas Perenifólias de Altitude, conhecidas localmente como Brejos, aos quais estão associadas grandes cidades, como Juazeiro do Norte e Crato, no Ceará, Campina Grande, na Paraíba, e Garanhuns e Pesqueira, em Pernambuco. No Semi-árido meridional, esse gradiente é observado principalmente nas áreas de influência da Chapada Diamantina, na Bahia, onde as Caatingas vão paulatinamente dando lugar a diversos padrões de Cerrados, Florestas Perenifólias de Altitude e Campos Rupestres, sendo esses últimos restritos as altitudes entre 1000 e 2000 m. Os cerrados da região apesar de menos exuberantes do que aqueles do Brasil Central e do Oeste da Bahia, apresentam muitas espécies exclusivas, além daquelas de ampla distribuição ao longo de todos os cerrados do Brasil. As Florestas de Altitude possuem árvores entre 10 e 15 m de altura, sempre verdes, subosque com grande diversidade de espécies e grande número de epífitas. De modo geral, as florestas setentrionais têm uma maior relação florística com a floresta atlântica de semelhante latitude, enquanto as florestas meridionais têm uma maior relação florística com a floresta atlântica do Sudeste, destacando-se a presença de gêneros como Drymis (Winteraceae), Weimannia (Cunoniaceae) e Podocarpus (Podocarpaceae). Os Campos Rupestres representam um tipo de vegetação savanícola, com predominância de herbáceas e subarbustivas, onde ocorrem famílias bem características como Velloziaceae (canela-de-ema) e Eriocaulaceae (sempre-vivas), e estão restritos a Cadeia do Espinhaço, em Minas Gerais e Bahia (Chapada Diamantina). Como foi referido anteriormente, essas áreas de montanhas têm um papel da maior relevância para a região por ser o local de nascente de vários rios.
A Caatinga abrange 735.000 km². É a vegetação mais degradada no semi-árido, e possui menos de 1% de sua área protegida em reservas. Recentemente, o governo brasileiro iniciou ações para conservar melhor sua biodiversidade. Áreas de extremo interesse biológico foram selecionadas sobrepondo informações de diferentes grupos de organismos , e ecorregiões foram propostas para o Bioma das Caatingas combinando dados bióticos e abióticos . O Bioma das Caatingas foi dividido em oito ecorregiões naturais: Complexo de Campo Maior (Piauí e Maranhão), Complexo Ibiapaba (compreendendo especialmente Piauí e Ceará); Depressão Sertaneja Setentrional (compreendendo especialmente Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco); Planalto da Borborema (compreendendo especialmente Paraíba e Pernambuco); Raso da Catarina, Depressão Sertaneja Meridional, Complexo da Chapada Diamantina e Dunas do São Francisco especialmente na Bahia. Associados a essas ecorregiões, foram definidas para o Bioma das Caatingas 57 áreas de grande importância para conservação, das quais 27 de Extrema Importância Biológica (veja mapa no Capítulo 2).
Diferentemente de outras áreas semi-áridas do mundo, a do Brasil é bem populosa, com cerca de 20 milhões de habitantes, o que representa mais ou menos 10% do total do país. A expectativa de vida nesta região é a menor do país, assim como a renda per-capta, e a taxa de analfabetismo é a maior do país. Devido a esses baixos índices de desenvolvimento humano, o habitante do Semi-árido, denominado ‘Sertanejo’, é considerado um forte. Para sobreviver em tais condições, desenvolveu uma estrutura sócio-cultural peculiar e uma forte relação com o uso dos recursos naturais disponíveis na região. São marcas características do sertanejo a roupa de couro, que protege o vaqueiro das plantas espinhosas, do calor e do sol escaldantes; o forró, a dança predominante, sempre acompanhada pela sanfona, o triângulo e a zabumba e; o pau-de-arara, o caminhão adaptado que é o principal meio de transporte para as pessoas da região.
Giulietti, A.M. et al. 2002. Espécies endêmicas da caatinga. In E.V.C.B. Sampaio et al. (eds.) Vegetação & Flora da Caatinga. Associação Plantas do Nordeste, CNIP, Recife, pp. 103-108.
da Silva, J.M.C. et al. (orgs.) 2004. Biodiversidade da Caatinga: Áreas e Ações Prioritárias para Conservação. Ministério do Meio Ambiente, Brasília-DF.
Velloso, A.L. et al. 2002. Ecorregiões Propostas para o Bioma Caatinga. TNC-Brasil, Associção Plantas do Nordeste, Recife.
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Commiphora leptophloeos, ‘umburana-de-cambão’, uma árvore típica das terras áridas brasileiras, Dunas do São Francisco. |
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Uma paisagem particular no Semi-árido brasileiro, afloramentos de calcáreos na Serra do Ramanho, sul da Bahia. |
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Vista típica da paisagem de caatinga, mostrando várias árvores decíduas. |
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Aspecto da caatinga durante a estação seca. Embora tudo pareça morto, existe vida ao redor; note os frutos abertos de Cavanillesia arborea (acima) e de Matelea nigra (abaixo). A estação seca oferece condições excelentes para a dispersão de sementes pelo vento. |
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O Sertanejo (acima) é uma característica marcante do Semi-árido brasileiro; com os menores índices de desenvolvimento, a população local é obrigada a retirar seu sustento dos recursos naturais da Caatinga (abaixo). |
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