Rumo ao Amplo Conhecimento da Biodiversidade do Semi-árido Brasileiro

Luciano Paganucci de Queiroz, Alessandro Rapini & Ana Maria Giulietti (Editores)

Frente a ameaça pela qual passa a biodiversididade das terras áridas, a Assembéia Geral das Nações Unidas proclamou 2006 o Ano Internacional dos Desertos e da Desertificação, que se extende às terras sub-húmidas. Este livro foi então uma demanda do MCT para que os projetos em biodiversidade do Semi-árido brasileiro fossem divulgados durante a COP-8. Nós encaramos o desafio de reunir informação sobre diferentes grupos de pesquisa do Nordeste no período de um mês, e o resultado são 27 capítulos apresentando uma pincelada dos projetos relacionados a biodiversidade do Semi-árido.

O Brasil abriga a maior biodiversidade do planeta, contando com cerca de 13% da biota global. Trabalhos recentes estimaram a biota brasileira entre 170.000 a 210.000 espécies conhecidas, mas essas estimativas podem aumentar para 1,8 a 2,4 milhões de espécies se considerarmos as espécies desconhecidas. Dado que os Neotrópicos estão entre as grandes regiões menos estudadas, podemos concluir que esses valores são realistas ou até subestimados. Comparando-os com o pequeno número de taxonomistas, vislumbramos a enorme tarefa que apenas começamos a desbravar sobre nossa biodiversidade.

O Semi-árido brasileiro está concentrado no Nordeste do Brasil. Apresenta a mais diversa dentre as paisagens brasileiras, tanto em relação a geomorfologia quanto aos tipos de vegetações. Esta diversidade ambiental se reflete na maior biodiversidade, na taxonomia complicada dos grupos e em padrões biogeográficos complexos em escalas relativamente pequenas. Essa diversidade de paisagens, vegetações e biodiversidade ocorrendo em mosaicos é um enorme desafio não apenas para estudos taxonômicos e ecológicos, mas especialmente para propostas de conservação. Mais recentemente, o governo brasileiro iniciou algumas iniciativas para aprimorar os mecanimos de conservação da biodiversidade da caatinga. Entretanto, essas estratégias sofrem com a falta de dados taxonômicos confiáveis. Dados empíricos têm mostrado que a eficiência no estabelecimento de áreas prioritárias aumenta quando a lista de espécie para cada área candidata está disponível, e que a vantangem obtida através de levantamentos taxonômicos ultrapassa de longe seus custos. No Semi-árido, porém, a experiência em taxonomia é menor do que nas demais regiões brasileiras, mesmo no Nordeste, que possui a maioria das instituições de ensino e pesquisa no litoral.

Este livro apresentará em seus 27 capítulos, uma pequena parcela das iniciativas que buscam fornecer dados sobre a biodiversidade do Semi-árido brasileiro. Uma visão geral dos aspectos físicos e bióticos do Semi-árido podem ser encontrados na seção introdutória ‘Apresentado o Cenário’.

Na primeira seção, são apresentadas duas iniciativas em rede: o IMSEAR (Capitulo 1) e o PPBio do Semi-árido (Capitulo 2), ambos financiados pelo MCT. O primeiro apresenta alguns resultados após quatro anos de projeto; enquanto o segundo apresenta a estrutura de seus componentes e seus principais objetivos.

A segunda seção contém três capítulos sobre coleções biológicas na região do Semi-árido. O Capítulo 3 apresenta uma ampla cobertura dos herbários brasileiros e uma boa idéia de suas histórias, as principais coleções e os maiores problemas. O Capítulo 4 aborda as coleções de culturas de microorganismos, as quais estão assumindo uma posição estratégica no desenvolvimento da biotecnologia do Nordeste. A iniciativa de repatriamento dos dados das coleções históricas de um herbário europeu (o RBG-Kew) para herbários no Nordeste do Brasil é apresentada no Capítulo 5. Ele ressalta o valor das coleções históricas, a maioria depositada nos herbários europeus, para os trabalhos taxonômicos desenvolvidos em países megadiversos, a maioria deles nos trópicos, e mostra a necessidade de estabelecimento de parcerias entre agências brasileiras e herbários internacionais. Infelizmente, não pudemos reunir informações sobre as coleções zoológicas.

A terceira seção apresenta a situação dos inventários de diferentes grupos e áreas no Semi-árido. Embora não seja uma abordagem exaustiva, ela dá uma idéia dos projetos de inventários em andamento. Para as plantas com flores, é apresentada uma visão geral desse grande grupo nos principais tipos de vegetação do Semi-árido (Capítulo 6), além de trabalhos florísticos nos Estados da Bahia (Capítulo 7) e da Paraíba (Capítulo 8), e em ambientes especiais e que abrigam floras e processos ecológicos particulares, como os campos rupestres em montanhas da Chapada Diamantina (Capítulo 9), inselbergs (Capítulo 10) e corpos aquáticos (Capítulo 11) incluídos no Semi-árido. Essa seção também apresenta projetos que lidam com levantamentos taxonômicos de duas familias de angiospermas, Polygonceae (Capítulo 12) e Rhamnaceae (Capítulo 13).

A situação atual sobre o conhecimento do fungos no Semi-árido é apresentada no capítulo 14. Dados sobre a diversidade de animais foram reunidos apenas para alguns grupos. A situação geral da biodiversidade de insetos no Semi-árido é apresentada no capítulo 15, seguido pelos tratamentos de duas ordens megadiversas, Diptera (as moscas, Capítulo 16) e Coleoptera (os besouros, Capítulo 17). Com relação aos vertebrados, são apresentadas informações para peixes (Capítulo 18) e aves (Capítulo 19). Os dados sobre peixes enfatizam os levantamentos em andamento e o risco da introdução de espécies exóticas na ictiofauna local de bacias isoladas. O capítulo sobre aves traz a triste notícia sobre a extinção recente da última população da ararinha-azul, espécie conhecida exclusivamente para a caatinga do nordeste da Bahia.

Estudos de caso sobre usos tradicionais de animais do Semi-árido como fonte de alimento e na medicina popular dos índios Pankararés e da população local são apresentados no Capítulo 20.

A quarta seção apresenta estudos de sistemática molecular de plantas em andamento no Semi-árido. O Capítulo 21 traz informações sobre estudos filogenéticos em diferentes grupos de plantas e sobre um Banco de DNA com mais de 1000 espécies amostradas. Esse é certamente o maior banco de DNA brasileiro, constituindo um registro valioso da diversidade de plantas do Semi-árido e uma notável fonte para estudos de sistemática vegetal com abordagens modernas. O Capítulo 22 apresenta um projeto cujo objetivo é produzir um diagnóstico rápido de seqüências de DNA que possam ser utilizadas como códigos-de-barras para uma rápida identificação das plantas terrestres no nível de espécie. Se bem sucedido, o projeto fornecerá uma ferramenta confiável para a identificação de plantas, especialmente aquelas da caatinga, muitas das quais perdem suas folhas e flores durante a estação seca, e assim são de difícil identificação.

A quinta seção apresenta alguns programas de pós-graduação abordando diferentes aspectos da biodiversidade do Semi-árido: Botânica na UEFS (Capítulo 23), Biologia Vegetal na UFPE (Capítulo 24), Biologia de Fungos na UFPE (Capítulo 25) e Biotecnologia na UEFS, FIOCRUZ E UFBA (Capítulo 26). Infelizmente, o curto prazo para a entrega deste livro não nos permitiu uma apresentação de todos os cursos de pós-graduação. Assim, lamentamos profundamente a ausência de programas importantes na UFBA, UFC, UFPB e UFRPE.

A última seção apresenta um projeto que combina técnicas de análise de imagens satélite com observações de campo na elaboração de mapas para remanescentes de vegetação natural e para o uso do solo das caatingas (Capítulo 27).

Agradecemos os autores pela pronta contribuição e esperamos que este livro forneça informações úteis sobre as pesquisas em biodiversidade do Semi-árido realizadas no Nordeste do Brasil. Os resultados mais expressivos são conseqüência de um apoio mais regular aos estudos taxonômicos e ecológicos principalmente nos últimos dez anos, demonstrando a importância de um aporte contínuo e significativo de recursos na consolidação da prática regional em pesquisa biológica.


Luciano Paganucci de Queiroz
Alessandro Rapini
Ana Maria Giulietti

 

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