Aves do Semi-arido Brasileiro
Caio Graco Machado
As aves são os vertebrados mais bem conhecidos, pois são facilmente observáveis em quaisquer ambientes por possuírem, geralmente, colorações e vocalizações bastante conspícuas, serem em sua maioria diurnas e ocorrerem em grande número de indivíduos e espécies.
De todas as regiões brasileiras, o Semi-árido é a que tem sua avifauna menos conhecida. Há grandes lacunas sobre a distribuição, a composição e os padrões das diferentes comunidades de aves, além de serem poucos os estudos sobre sua ecologia e história natural. Nos últimos anos, entretanto, temos visto um crescente interesse pela avifauna desta região, sobretudo na caatinga, que é o único bioma endêmico do Brasil. Em 2000, foi realizado um workshop (PROBIO/MMA) em Petrolina, Pernambuco, coordenado por José Fernando Pacheco e Claudia Bauer, que resultou em um documento intitulado ‘Avaliação e identificação de ações prioritárias para conservação, utilização sustentável e repartição de benefícios da biodiversidade do Bioma Caatinga’. Sobre as aves, estes autores produziram uma completa e excelente revisão sobre o histórico e o estado da arte do conhecimento da avifauna da caatinga (‘Aves da Caatinga – Apreciação Histórica do Processo de Conhecimento’). Este documento compôs, junto com outros, o livro “Biodiversidade da caatinga: áreas e ações prioritárias para a conservação”, publicado pelo MMA em 2004.
Interação entre Aves e Plantas
Os estudos sobre interação entre aves e plantas, sobretudo acerca dos beija-flores e seus recursos florais e sobre dispersão de sementes por aves, conduzidos em áreas de campo rupestres e, mais recentemente, em áreas de caatinga e cerrado da Chapada Diamantina, sob financiamento da FAPESB, MMA/PROBIO, CNPq e FNMA, têm mostrado que grande parte dos recursos utilizados pelas aves (néctar e frutos) está disponível ao logo de todo o ano, mantendo as populações de polinizadores e dispersores de sementes na localidade, maximizando, desta forma, o processo reprodutivo das plantas.
Fora da Chapada Diamantina, mas ainda dentro do Semi-árido baiano, foram e ainda têm sido conduzidos estudos em áreas consideradas como prioritárias para investigação biológica. No Raso da Catarina, foi desenvolvido um estudo financiado pelo FNMA sobre a utilização das aves pelos índios Pankararé. Praticamente todas as espécies de aves locais são utilizadas por este grupo étnico, principalmente para alimentação, excetuando os urubus (Cathartes aura, C. burrovianus e Coragyps atratus), devido ao odor ruim da carne, e a lavandeira (Fluvicola nengeta), pois acreditam ser uma ave abençoada.
Inventário de Aves na Chapada Diamantina
Objetivando incrementar o conhecimento da avifauna do Semi-árido, em especial o baiano, desde 1997 a UEFS vem desenvolvendo e participando de projetos envolvendo inventariados avifaunísticos e estudos direcionados sobre a interação entre aves e a flora local. Este conhecimento é essencial quando se discutem estratégias para a conservação da biodiversidade, uma vez que as aves são excelentes bioindicadores de qualidade ambiental.
A região do Semi-árido baiano totaliza cerca de 40% do território do Estado da Bahia e inclui um mosaico vegetacional composto por áreas de cerrado, matas mesófilas interioranas, campos rupestres e gerais, dunas fluviais e, sobretudo, caatinga. Grande parte desta diversidade fitofisionômica do Semi-árido baiano ocorre na Chapada Diamantina, que tem sido o foco maior de investigações do LORMA (Laboratório de Ornitologia e Mastozoologia) na UEFS. Inventariados feitos através de projetos financiados pelo CNPq (‘Estudos de Flora e Fauna na Cadeia do Espinhaço da Bahia e Definição de Estratégias de Preservação’) e PROBIO/MMA (‘Chapada Diamantina: biodiversidade’) resultaram, até hoje, em um registro de cerca de 370 espécies de aves.
O Parque Nacional da Chapada Diamantina é considerado área chave para a conservação de espécies vulneráveis e raras, como a jandaia (Aratinga auricapilla), a tiriba (Pyrrhura cruentata), o bico-virado-da-caatinga (Megaxenops parnaguae) e o chorozinho-de-papo-preto (Herpsilochmus pectoralis); a região abriga também outras espécies ameaçadas de extinção reconhecidas pelo IBAMA, como a águia-cinzenta (Harpyhaeliaetus coronatus), o gavião-pomba (Leucopternis lacernulata), a jacucaca (Penelope jacucaca), o papagaio-de-peito-roxo (Amazona vinacea), o formigueiro-do-nordeste (Formicivora iheringi), o pavó (Pyroderus scutatus)e o coroinha (Carduelis yarrelli).
Apesar de sua singularidade, a avifauna da Chapada Diamantina é pobre em endemismos. Nela, ocorrem três espécies que são endêmicas da Cadeia do Espinhaço: o papa-moscas-de-costas-cinzentas (Polystictus superciliaris), felipe-estulinha (Embernagra longicauda) e o beija-flor-de-gravatinha-vermelha (Augastes lumachellus). Apenas a última espécie é exclusiva da Chapada Diamantina, o que sugere que ela seja eleita sua ave-símbolo.
O Parque Nacional da Chapada Diamantina é uma área de extrema importância para a conservação da avifauna regional, pois além de abrigar as espécies residentes, é um ponto fundamental para muitas espécies migratórias em sua rota de migração. Pode-se perceber a importância e a urgência da conservação de sua avifauna através de números: são 33 espécies migratórias, 40 espécies endêmicas brasileiras (em diferentes níveis de distribuição) e 20 espécies que sofrem algum tipo de ameaça de extinção.
Inventário de Aves na Caatinga
Apoiado pelo MCT, está sendo realizado um levantamento da avifauna da região de Senhor do Bonfim e das dunas do rio São Francisco, áreas selecionadas para a realização de inventários do PPBio do Semi-árido (Capítulo 2). Até agora foram registradas 141 espécies de aves na primeira região e 91 na segunda. Estas riquezas devem ser maiores. As investigações estão em andamento e os resultados parciais se restrigem a registros apenas durante a estação seca. Serão ainda realizadas expedições na estação chuvosa, quando abundam recursos na caatinga, o que conseqüentemente deve atrair populações de espécies diferentes de aves.
A equipe de ornitologia da UEFS realizou uma detalhada investigação sobre estudos realizados sobre avifauna no Semi-árido baiano, junto ao IMSEAR (Capítulo 1), resultando em um check-list. Foi registrado um total de 456 espécies de aves ocorrentes no Semi-árido baiano. Estas espécies foram obtidas a partir da consulta de 154 referências em literatura, resultando um total de 3289 registros de espécies de aves. Desta riqueza, foram registradas 57 famílias, sendo que duas delas, Tyrannidae e Emberizidae, contribuíram com 72 e 67 espécies, respectivamente. Ambas ocorrem em uma grande diversidade de ambientes, sendo a primeira, Tyrannidae, exclusiva do continente americano.
É baixo o número de endemismos entre as aves na região do Semi-árido baiano. Apenas três espécies são consideradas endêmicas da região: o beija-flor-de-gravatinha-vermelha, Augastes lumachellus (Trochilidae), a ararinha-azul, Cyanopsitta spixi, e a arara-azul-de-lear, Anodorhynchus leari (ambas Psitacidae). Augastes lumachellus ocorre na porção norte da Cadeia do Espinhaço, substituindo seu congenérico da porção sul, Augastes scutattus. Na Chapada Diamantina, A. lumachellus parece estar restrito a altitudes acima de 1.000 metros. A ararinha-azul já é considerada extinta na natureza. Ela ocorria na região de Curaçá, enquanto a arara-azul-de-lear ocorre na região do Raso da Catarina. Apesar de grandes, os esforços para proteger a ararinha-azul foram tardios e infrutíferos. A arara-azul-de-lear, juntamente com a jacucaca (Penelope jacucaca), espécie endêmica da caatinga, mas não restrita ao Estado da Bahia, figuram na listas de espécies da fauna ameaçadas de extinção.
Conservação das Aves
Dada à vasta área ocupada pelo Semi-árido na Bahia, ainda há grandes lacunas a serem exploradas. Ainda assim, alguns fatores têm contribuído para a extição de espécies, tais como (i) o desconhecimento da avifauna desta região, (ii) a intensa pressão de caça, que visa não somente o uso na alimentação, mas também o comércio ilegal (nacional e internacional) de animais silvestres (e a Bahia é o Estado que lidera este tipo de atividade!), e (iii) a destruição de habitats. A recente extinção da ararinha-azul na natureza corrobora isto.
Assim, a UEFS vem somando esforços, através de seu empenho na investigação científica sobre as aves do Semi-árido baiano, enfocando estudos sobre sua composição, riqueza, distribuição, uso de habitats, interações com a flora, comportamento e reprodução, objetivando contribuir com qualidade para o conhecimento da avifauna desta região, com o comprometimento de discutir metas de conservação e manejo de suas espécies e ambientes.
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A jacucaca (Penelope jacucaca, Cracidae) vive em florestas e caatinga de planícies secas. |
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O carcará (Caracara plancus, Falconidae) ocorre em campos abertos, se alimentando no chão. |
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O cardeal (Paroaria dominicana, Emberizidae) é uma ave típica do Semi-árido. |
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A arara-azul-de-lear (Anodorhynchus leari, Psittacidae) é endêmica do Raso da Catarina, Bahia. |
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O beija-flor-de-gravatinha-vermelha (Augastes lumachellus, Trochilidae) é endêmico da Chapada Diamantina. |
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