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Rita Olivieri recebe prêmio por obra sobre João Ubaldo

Rita Olivieri recebe prêmio por obra sobre João Ubaldo

Rita Olivieri-Godet no lançamento de Construções Identitárias em Feira de Santana (julho de 2009). Foto com o professor emérito da Uefs José Jerônimo de Morais, Ana Angélica Vergne e Raymundo Luiz Lopes. Foto: Everaldo Goes

   A pesquisadora Rita Olivieri-Godet, ex-professora da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs) e atual diretora do Departamento de Português da Universidade de Rennes, na França, recebe, nesta sexta-feira (22), na Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro, o Prêmio Amélia Sparano de Literatura. Ela conquistou o primeiro lugar na categoria ensaio, concedido pela União Brasileira de Escritores (UBE), pelo trabalho Construções Identitárias na Obra de João Ubaldo Ribeiro. A solenidade está prevista para as 14 horas.

   A obra é uma publicação conjunta da UEFS Editora, Hucitec e da Academia Brasileira de Letras. Lançado na França em 2005 com o título João Ubaldo Ribeiro – Littérature Brésilienne et Constructions Identitaires, o livro teve lançamento no Brasil em Feira de Santana, em julho de 2009. A publicação foi proposta pelo professor Aleilton Fonseca, do Departamento de Letras e Artes da Uefs, e aprovada pelo Conselho Editorial da UEFS Editora.

Rita Olivieri   Em resenha para o Jornal do Brasil, Aleilton Fonseca relata que Rita Olivieri-Godet analisa em João Ubaldo Ribeiro a problemática da identidade nacional afastando-se da homogeneização dos traços culturais, privilegiando uma representação plural. Conforme Fonseca, Rita Olivieri coteja os textos ficcionais com o aparato teórico, privilegiando a articulação entre as estratégias narrativas e as figurações identitárias operadas por João Ubaldo.

   Diversidade

   A professora Zilá Bernd, da UFRGS, no prefácio de Construções Identitárias, relata que o trabalho constitui-se na mais completa reflexão até hoje publicada sobre a obra do escritor baiano. Ela afirma, ainda, que se trata “de  leitura indispensável para todos os interessados nas relações literatura e identidade nacional e cultural, nas relações literárias e culturais interamericanas, literatura brasileira contemporânea e na constituição da nação e, mais especificamente, para aqueles que se detêm na produção literária de João Ubaldo Ribeiro”.

   Para a autora de Construções Identitária, os textos de Ubaldo revelam a face obscura e conflituosa da formação social brasileira e os dilemas da contemporaneidade, ainda marcada pela intolerância diante das manifestações da diversidade cultural e de identidade. Sobre a premiação, Rita Olivieri se diz satisfeita e feliz. O reconhecimento, afirma, "é fruto de muitos anos de estudo da obra desse grande escritor brasileiro que me atraiu pelo questionamento das categorias segundo as quais a nação brasileira foi pensada ao longo de sua formação, construindo um retrato amplo e complexo de nossa sociedade”.

Ascom/Uefs - FSA, 21/10/10

Memória, história e ficção

                                      Aleilton Fonseca

   A configuração identitária dos povos nunca foi um processo claro e pacífico. A história tem mostrado como as diferenças provocam conflitos, levam à intolerância e à discriminação. Em face disso, a literatura muitas vezes se torna uma forma de representação crítica, mostrando a crueza e o absurdo de realidades que precisam ser compreendidas e superadas. A obra de João Ubaldo Ribeiro mostra-se atenta a essas questões, ao abordar diversos aspectos da formação social do povo brasileiro.

   O livro de Olivieri-Godet debruça-se sobre as construções identitárias do autor de O albatroz azul, para examinar uma das facetas mais significativas de sua obra. A ensaísta, que leciona na Universidade de Rennes 2, na França, já publicou diversos artigos sobre as representações literárias das relações culturais contemporâneas. No novo ensaio, ela analisa Viva o povo brasileiro, Vila Real, o Feitiço da ilha do pavão, A casa dos budas ditosos, as crônicas do livro Um brasileiro em Berlim, além de contos do livro podeis da pátria filhos. Godet aborda os textos ficcionais a partir de uma conceituação teórica específica, citando autores brasileiros e franceses, como Antonio Candido, Silviano Santiago, Zilá Bernd, Francis Utéza, Georges Bataille, Gérard Genette, Gilles Deleuze, e os caribenhos Patrick Chamoiseau, Édouard Glissant, entre outros.

   Nos quatro capítulos do livro, a autora estabelece conexões entre as obras de Ubaldo e as questões identitárias, demonstrando suas recorrências, seus significados e sua abrangência. Com isso, insere a literatura brasileira na problemática das identidades, como ponto de partida para situar o lugar ocupado por João Ubaldo nesse universo temático. Seu estudo aponta o percurso do ficcionista, desde a tendência carnavalizante de Vencecavalo e o outro povo (1974), passando pelo neo-realismo de Vila Real (1979), até chegar a uma ficção que “faz coexistir uma visão épica e dramática com a perspectiva carnavalesca, que, cada vez mais, terá tendência a se impor em sua obra” (p. 28).

   Em suas análises, Godet anuncia que, em João Ubaldo Ribeiro, “a problemática da identidade nacional afasta-se da homogeneização dos traços culturais, privilegiando uma representação plural da identidade brasileira” (p. 28). Para demonstrar seu ponto de vista, ela coteja os textos ficcionais com o aparato teórico, privilegiando a articulação entre as estratégias narrativas e as figurações identitárias operadas pelo escritor.

   O ensaio correlaciona memória, história e ficção, e aproxima identidade, território e utopia, mostrando marcas da voz autoral, intertextualidades, técnica e estratégias narrativas. Segundo a autora, Ubaldo implode estereótipos, instaura a pluralidade de vozes, revelando a face obscura e conflituosa da formação identitária brasileira.

   Godet mostra como os textos de João Ubaldo refletem sobre os dilemas de nossa época, ainda marcada por reações de intolerância diante de certas manifestações da diversidade cultural e identitária. Dessa forma, considera que sua ficção contribui para que entendamos melhor a sociedade em que vivemos, identificando seus conflitos e suas possíveis soluções.

Resenha do escritor Aleilton Fonseca, publicada no Jornal do Brasil.
Ideias & Livros, em 5/12/2009, p. 6.

Construções identitárias na obra de João Ubaldo Ribeiro
Rita Oliveri-Godet (São Paulo: HUCITEC; Rio de Janeiro: ABL; Feira de Santana: UEFS Editora, 2009).