Meteorologista aponta fenômenos causadores das chuvas no Nordeste
ASCOM - Assessoria de Comunicação

As chuvas que vêm ocorrendo desde janeiro deste ano sobre a região Nordeste o Brasil são resultantes de vários fenômenos atmosféricos, como explica o professor Gildarte Barbosa, meteorologista e responsável pela Estação Climatológica da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Segundo ele, uma frente fria provocada por uma massa de ar que se deslocou do Polo Sul provocou chuvas em grande parte do Brasil, notadamente na região Nordeste, atingindo, além da Bahia, os estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Piauí e Maranhão. Em Feira de Santana foi registrado um total surpreendente, no mês de janeiro, de 260mm em 18 dias com chuvas, o que representa 1/3 da média histórica que é de 863 mm.
Gildarte Barbosa aponta outros fenômenos, além da frente fria, responsáveis pela ocorrência das chuvas, a exemplo da circulação de ventos no sentido horário em altos níveis e convergência de ventos alísios dos Hemisférios Norte e Sul. Este último ele considera o principal fenômeno provocador das chuvas no área norte da região Nordeste.
Presente no VI Workshop Internacional de Avaliação Climática para o norte da região Nordeste do Brasil, realizado em Fortaleza (CE) entre os dias 22 e 23 de janeiro, Gildarte Barbosa disse que, este ano o seminário teve um significado especial por reunir representantes de instituições da meteorologia nacional e internacional, universidades e centros estaduais de meteorologia e recursos hídricos, num trabalho cooperativo.
Nesse encontro os pesquisadores concluíram que não existem condições para chuvas extremas para a região no período de fevereiro a maio de 2004, tendo em vista a ausência de eventos como o El Niño e La Nña. A previsão climática para esse período é de chuvas dentro da média histórica, podendo algumas regiões apresentar precipitações abaixo dessa média.
Veja abaixo, na íntegra, o boletim informativo do evento, com todas as considerações técnicas.

VI WORKSHOP INTERNACIONAL DE AVALIAÇÃO CLIMÁTICA PARA A REGIÃO

TENDÊNCIA CLIMÁTICA PARA O PERÍODO DE FEVEREIRO A MAIO DE 2004


1. SUMÁRIO

Nos dias 22 e 23 de janeiro de 2004, realizou-se, em Fortaleza-CE, o VI Workshop de Avaliação Climática para o norte da Região Nordeste do Brasil. Participaram do evento, técnicos da: FUNCEME, CPTEC/INPE, INMET, IRI, COLA, IRD, USP, UEFS, MCT e centros de meteorologia dos Estados da Paraíba, Rio Grande do Norte e Sergipe. Este ano o seminário se reveste de significado especial por reunir as instituições da Meteorologia nacional (INMET e o CPTEC/INPE), internacionais (IRI, COLA, IRD) e universidades e centros estaduais de meteorologia e recursos hídricos e o MCT em trabalho cooperativo e integrado.

A previsão climática foi realizada para a região que compreende centro-leste do Maranhão, Piauí, Ceará, centro oeste dos estados do Rio Grande do Norte, Pernambuco e Paraíba, noroeste de Sergipe e Alagoas, e centro-norte do estado do Bahia.

Por não existirem forçantes de grande escala característicos de eventos extremos, como por exemplo, forte El Niño, La Niña, ou dipolo de temperatura no Atlântico, os pesquisadores concluíram que não existem condições para chuvas extremas (ano muito seco ou muito chuvoso) para a região na quadra chuvosa de fevereiro a maio de 2004, devendo o total de precipitação nesse período, ficar no entorno da média histórica.

Ao final do evento concluiu-se que a previsão climática para o período de fevereiro a maio de 2004 é de chuvas dentro da média histórica, podendo algumas regiões apresentar precipitações abaixo da média histórica no setor norte do Nordeste do Brasil.

Ressalta-se a alta variabilidade espacial e temporal das chuvas, característica intrínseca desta região durante anos de chuvas em torno da média histórica. Recomendando-se, portanto, o monitoramento contínuo das condições oceânicas e atmosféricas sobre as bacias dos oceanos Pacífico Equatorial e Atlântico Intertropical nos próximos meses.


2. ANÁLISES

2.1 - CAMPOS OCEÂNICOS E ATMOSFÉRICOS RELATIVOS AO MÊS DE DEZEMBRO DE 2003 e MEADOS DE JANEIRO de 2004

O campo de Temperatura da Superfície do Mar (TSM) sobre o Pacífico Equatorial mostra anomalia positiva (águas mais aquecidas do que o normal) na região do El Niño.3.4. Nas demais regiões a TSM apresenta-se com valores próximo do normal. No Atlântico Intertropical, a TSM está mais aquecida do que o normal na bacia ao norte do Equador e neutro a ligeiramente abaixo na bacia ao sul.

No campo de Pressão Nível do Mar-PNM observa-se anomalia positiva no Centro de Alta Pressão do Pacífico Sul, devendo intensificar os ventos alísios sobre o Pacífico Equatorial, podendo reduzir o aquecimento superficial das águas. No Atlântico Intertropical observa-se anomalia positiva sobre o Centro de Alta Pressão do Atlântico Sul e anomalia negativa na área de localização da Alta Pressão do Atlântico Norte.

O campo de vento em 850 hPa mostra anomalia positiva do vento no Pacífico Equatorial a leste da linha da Data com aumento na intensidade dos ventos alísios e possivelmente na redução da anomalia de TSM nesta região. No Atlântico Tropical observa-se anomalia positiva nos ventos alísios de Sudeste e negativas nos ventos alísios de Nordeste.


2.2 - MODELAGEM NUMÉRICA E ESTATÍSTICA.


Os resultados dos modelos dinâmicos e estatísticos de previsão de clima (chuva), mostram concordância com pequenas diferenças, com maior tendência para chuvas em torno da média histórica em 2004 no norte do Nordeste. Os modelos de previsão da Temperatura da Superfície do Mar (TSM) indicam que a anomalia de TSM na região do Niño 3.4 deverá permanecer entre 0oC a 1oC, (pequeno aquecimento) até maio de 2004.

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS


As condições oceânicas e atmosféricas e os resultados dos modelos de previsão de TSM indicam que deverá ocorrer anomalia de TSM próxima à normal sobre o Pacífico Equatorial leste no período de fevereiro a maio de 2004.

Anos similares no passado mostram a necessidade de um monitoramento continuado do Atlântico Tropical que desempenha papel importante na qualidade da quadra chuvosa.

Como a previsão é de chuvas em torno da média histórica a abaixo dessa média, poderão ocorrer veranicos acentuados, não se descartando também a possibilidade de ocorrência de eventos extremos de chuva localizada.

Este prognóstico baseou-se nas análises das condições oceânicas e atmosféricas relativas a dezembro de 2003 e meados de janeiro de 2004 e dos resultados gerados pelos modelos numéricos, estatístico e estocástico, global e regionais de previsão climática.

Fortaleza, 23 de janeiro de 2004


SIGLAS UTILIZADAS

CMRH-SE Centro de Meteorologia e Recursos Hídricos de Sergipe
COLACenter of Ocean- Atmosphere Studies (EUA)
CPTEC/INPECentro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos/Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais
EMPARN Empresa de Pesquisa Agropecuária do Rio Grande do Norte
FUNCEMEFundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos
IAG/USP-Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Univ. de S. Paulo
INMETInstituto Nacional de Meteorologia
IRD-Institute de Recherche pour le Development (França)
IRIInternational Research Institute for Climate Prediction
MCT-Ministério da Ciência e Tecnologia
UCUniversidade de Columbia (EUA)
UEFSUniversidade Estadual de Feira de Santana